Crianças não mentem OU mentem tão bem que se passam por sinceras. Mentiras sinceras. Não se pode acusá-las de mentir OU mentiríamos na tentativa de atestar nossa verdade. Porque crianças sempre podem “enganar o bobo na casa do ovo”. O bobo seremos nós, que tampouco conhecemos a situação paradoxal na qual nos metemos OU fingimos momentos de liberdade ao lidarmos com elas. O ovo é a armadilha. Então, crianças se colocam fora OU dentro do jogo, dependendo do que lhes convém. Qualquer brincadeira é digna. Fica o acordo bilateral de fingir OU de fingir verdades inverossímeis – o que sempre dá no mesmo.
22 março 2007
Notas sobre o Futuro inesperado
20 março 2007
A última vida de Super J. Bros
J. desiludiu-se do amor, nas coisas pequeninas que adorava, quando ela não lhe olhava nos olhos e simulava qualquer prazerzinho com um tremelique. J. desiludiu-se. A princess é mais barbie.
J. desiludiu-se da vida, os grandes momentos de glória que menosprezava, quando erguia o caneco no pódio e não lhe desgrudava os olhos, a vida sempre tinha das suas. J. desiludiu-se.
De tanto correr, feito Forest Gump, J. correria até não mais poder, recolheria ao peito a estrelinha do poder da imortalidade, e no embalo da trilha de fundo imortal em silêncio se aliviaria no fogo do castelo de Koppa, enfim.
16 março 2007
A terceira vida de Super J. Bros
O Mundo de Bros não retrocede. O tempo, em termos, poderia se sustentar sem o time is over ou time is money. A estrelinha que ficara para trás ficara para trás. O que passou passou. Whatever will be will be. O toddy verde, que vale o risco-de-vida, que é de morte, significa uma nova vida.
O arrependimento não faz parte do conjunto dos sentimentos de J. Em verdade, o arrepender-se é ação equivocada, porque reconhecê-lo significa admitir que se fez escolha errada. Mas escolha deliberada. Afinal, ninguém se arrepende de algo a que fora coagido. Pessoas há que “não se arrependem de nada”, “fariam tudo de novo”, “reviveriam de bom grado cada momento dessa vidinha de merda”. Pessoas desse tipo nada tem de J., que se mutila como os troncos das árvores em direção à fruta, e retorce, em cada bifurcação de seus galhos, um possível e carquilhado caminho.
Acontece que J. não tem medo de nascer para ser galho podre, descalso. J. tem o Super de herói.
O medo de não ser o que se é explica modalmente o equivoco do não-arrepender-se; e o medo de ser o que se é explica empiricamente o equivoco do arrepender-se.
O Mundo de J. não retrocede, embora retorça a si mesmo a cada Start. Por isso esta vida é a terceira e última, embora J. não tenha morrido pela segunda vez. Cada vida é uma vida, se e somente se.
14 março 2007
A segunda vida de Super J. Bros
Enfim J. conhecera os pergios dessa vida. Pelo menos até o abismo.
Lactu arremessava-lhe cágados com espinhos nas costas; J. soltando fogo pelas ventas; matou um, dois, saltou o terceiro e escorregou sorrateiro por um robusto cano verde.
Passagem secreta.
As crianças se refugiam em casa. No fliperama ninguém toca no assunto, porque no fliperama ninguém é criança. Aqui se luta Street Fighter ou Mortal Kombat.
Dentro da caverna, J. encontra uma peninha que lhe transforma em Super J. Agora ele voa tão alto que encontra sobre as nuvens algum bonus. Quase trinta moedas de ouro.
Um super-salto e a bandeirada final.
13 março 2007
A primeira vida de Super J. Bros
Agora ele já é homenzinho. Correu até o primeiro abismo. O mundo girou e J. Bros caiu sem querer para cima.
09 março 2007
Sempre soube que eu ficaria como o cara de grande potencial, como a grande hipótese de um paradigma que não se aplica. Insustentável & portanto pelos ares cada plano futuro e passado, toda promessa murchava enquanto eu perdia o viço e seguia feito balão vazio. Nos anos de meus vinte anos postava-me incólume na cadeira carcomida que herdei da família. E é ela que balança e me faz dizer Sim sem querer.
08 março 2007
- Ora, dia sim dia não, dia sim dia não...!
(Idéia original: Thomas Nagel sobre a soma dos números pares, que é simultaneamente infinita e metade de outra soma)
07 março 2007
Ontologia das Coisas V
De quietude em quietude: o fim, que nunca é o bastante para lotar um estádio de futebol. O fim, que nunca cabe dentro das coisas e se limita ao póstumo the end dos cinemas, o mesmo final do suspiro e do ponto. Não foi lá um final do tipo viveram felizes para sempre. Tiveram momentos felizes e tristes e nessas férias não vão viajar. Permanecerão ali, ambos, os três.
05 março 2007
Ontologia das Coisas IV
Eu não poderia sequer ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Por isso permaneci em minha quietude – mas a inércia é a resistência que os corpos opõem à modificação de seu estado natural. Fosse cor e eu seria o apagado, fosse verdade seria a subalterna, fosse conjectura e seria o caso que se descarta, fosse amor e seria o último a saber, fosse o caso de ser e eu seria o apenas, o quase, eu mesmo permanentemente para todo o sempre.
Ontologia das Coisas III
Não tenho o sentimento do mundo nem os poderes de Super-homem mas posso criar quanto mundos permite a imaginação. O que acabo de descobrir é que posso manipulá-los formalmente. Não através de sentenças do tipo ‘x é V’. Basta nomearmos, num modelo, domínio e função. A vantagem do método é excluir sentenças metafísicas do tipo “morte da bezerra” ou “o que seria se não fosse”. Ficam somente estados de coisa necessárias e não a necessidade em si. A lógica não é ciência de outro mundo, nem dela nem minha nem de Deus. Duas proposições contraditórias não podem ser ambas corretas porque dois estados do mundo contraditórios não coexistem. O princípio de contradição é portanto derivado e não primitivo.