É uma menina.
23 fevereiro 2007
16 fevereiro 2007
Ontologia das Coisas II
A lógica nem não foi invenção de mulher e homem. Deus ou não tem sexo ou é homem. Portanto, meu mundo ainda possui apenas três entidades, eu ainda permaneço entre ela e a porta, ela é a única a chorar lágrimas de crocodilo e a porta é a única saída possível. Tudo é.
14 fevereiro 2007
Ontologia das Coisas I
Vamos supor. Seja meu Mundo minusculamente povoado por um homem, uma mulher e uma porta.
M¹{h, m e p}
Dos três elementos, a porta parece-nos o mais inútil, embora estável. Sem porta, contudo, saímos ou não entramos, exceto se pularmos a janela ou adentrarmos feito Papai-noel ou Lobo-mau ou Rapunzel. Tal uso de janela e chaminé é apenas parasitário em relação à porta do mesmo modo que a faca o é em relação à chave-de-fenda, ou o vibrador em relação ao ... ... Alguém poderia conjecturar “se há porta, há chão e paredes”; o que não nos parece verdade uma vez que as margens do mundo não fazem parte do mundo.
(Graças a Deus não é) Se a lógica fosse invenção de uma mulher, então a navalha de Ockham seria uma faquinha de manteiga. Ela instauraria como entidades autônomas as relações entre os elementos.
M²{h, m, p, hm, hp, mp e hmp}
Ela diria, por exemplo, que “mulher cavalgando sobre homem” = “hm” ou graficamente:
M³{h, m, p, hm, hp, mp, ph, pm, hmp, hpm, mhp, mph, phm, pmh...
Mais ainda, se Deus fosse mulher, então o mundo contaria infinitas entidades tal a extensão do raciocínio combinatório dispõe.
Obviamente, Deus não se fez mulher.
12 fevereiro 2007
Sentido das Coisas V
“Todo homem ama uma mulher” pode ser substituído por “não homem ou ama uma mulher”. A lógica é machista, homofóbica. A lógica bivalente quer um mundo de homens que amam mulheres, não tem de lidar com verdadeiros. Mas as coisas, as coisas elas mesmas não têm sexo. As coisas não têm tristezas, mágoas ou melindre. As coisas não têm consciência, tino ou bom-senso. O sentido oculto das coisas é elas terem sentido em apenas uma acepção. As coisas vêm e vão, podem estar, mas nunca permaneceriam indefinidamente. As coisas se orientam. Eu não me orientava, não ia ou vinha, ficava. Por isso não posso dizer que sou coisa. Meu sentido é adjetivo, sentido figurado e contra-intuitivo, anti-horário. Sentido enquanto ser-lógico. Tão indireto quanto a lei da implicação material.
08 fevereiro 2007
Sentido das Coisas IV
Kamasutra é a física do amor. Schopenhauer escreveu sobre a metafísica do amor. Éros era. Dizem as más-línguas que no amor não há sentido nem hipótese. Tampouco há coincidências e paradigmas. Nem não há lógica. Se disséssemos “Todo homem ama uma mulher”, então o amor seria universal. Realizaríamos a utopia John Lennon. Porém, deveríamos nos retratar e dizer que a proposição permite pelo menos três interpretações diferentes. A primeira é que cada homem ama uma mulher diferente. João ama Maria. Pedro ama Dora. José ama Teresa. Eu amo alguém (mesmo que alguém também ame alguém). Na segunda interpretação existe uma mulher que é amada por todos os homens.
1º caso: “Para todo x e para algum y, se y é mulher e x é homem, então x ama y”, ou “∀x ∃y(M(y) ∧ H(x)) ⇒ A(x,y)”. Podemos, contudo, ser maldosos e pensar que o mundo é uma grande suruba. Para evitar tamanha balbúrdia mundana, basta eliminar a variável livre no escopo do quantificador existencial, e dizer que “João ama sua mulher”, ou “∀x (Mulher(mulher-de(x)) ∧ Homem(x)) ⇒ Ama(x, mulher-de(x))”.
2º caso: “Para algum y e para todo x, se y é mulher e x é homem, então x ama y”, ou “∃y ∀x (M(y) ∧ H (x)) ⇒ A(x,y)”. Reparem que a instanciação está no escopo do quantificador existencial. Portanto, podemos substituir a variável quantificada existencialmente por uma constante qualquer. Teremos: “∀x (x (M(a) ∧ H(x)) ⇒ A(x,a)”.
Essa ambigüidade no escopo do quantificador se reflete tanto na querela a respeito da calvície do suposto Rei da França como em nossas crenças básicas sobre o amor: “quem você ama?” Talvez a pergunta correta fosse “como” ou “desde quando” ou “até quando” ou mesmo “por que”. “Em qual sentido?” - eis a resposta.
06 fevereiro 2007
Sentido das Coisas III
Isso nunca passou de um vai-vem, de um zig-zag, de uma metáfora que exprimisse Amor e Labirinto. Antigamente ele lia Drummond. E mesmo que não o lesse saberia que a verdade ultrapassa o uso metafórico; saberia que amor nem sempre se sente e quase nunca se diz: falsifica-se; saberia que todos os caminhos levam a Roma mesmo dentro de um labirinto. Pobre do artista que não conhece verdades perenes. O verdadeiro sempre foi algo sujo. Por isso ela ficava por cima, como quem defeca, a cavalgar, mesmo que ele se mantivesse tão imóvel quanto um cadáver. Talvez movesse os dedos dos pés, ou apenas os braços, mas nunca o tronco e as pernas. Tudo não passava de uma questão de ou ou e, de e e ou. O amor era função lógica expressa na música do Fábio Jr. acerca das metades da laranja, dois amantes, dois irmãos: “Para todo x existe um y, tal que y = x÷2.
05 fevereiro 2007
Sentido das Coisas II
Eu era mesmo um merda. E ela, o cogumelo que me suga até a última podridão e se apraz em sentir meus dejetos em suas mucosas parasitas. E só vem-a-mim vem-a-mim vem-a-mim... Nunca usava o subjuntivo e isso foi sua pior qualidade.
...
Eu não era um merda. Pelo menos não mais que um monte de dejetos não evacuados. Era um merda dentro de mim mesmo, nos intestinos. Guardava qualquer coisa, qualquer estorieta, qualquer impressão das coisas, sentimento anacoluto que fosse, bastava ter sido meu parcialmente e não largaria, nunca, feito cão que morde o osso, eu me tornaria um pit-bull e morreria pela lembrança de cada lembrança. As pessoas costumam mudar, desamar, malamar, restaurar laços, lançar ao fogo papéis antigos. Eu não. Eu era como uma folha que ia se dobrando ao infinito, até que amarelar e tudo pegar fogo sem que eu riscasse fósforo. No fim, cinzas, embora minha merda ainda fosse marrom.
02 fevereiro 2007
Sentido das Coisas I
Eu sabia exatamente onde estava o guarda-chuva, embora não fosse capaz de alcançá-lo. Talvez o fosse, porque tudo isso de balançar os braços e as mãos, as imbecilidades, ser robô e girar como jacaré, dos ahs e ohs e saídas empoeiradas, tudo isso é uma estratégia metafórica de não dizer ou encobrir a verdade. Eu poderia tudo, porque tudo se pode, ao contrário de nada e do que pensam os metafísicos. Poderia gritar e mesmo sem voz continuar gritando. Ela escutaria, decerto, mesmo surda. E poderia tapar a minha boca com a sua, com a palma estendida da mão, com ambas as coisas e em ambos os sentidos, ou calar-me a bofetadas simplesmente. Enfim, a moral de tudo isso é que as coisas se encadeiam em causas, e logo recebem o nome de fatos. Estes são extratemporais porque o que os determina não é a duração, mas sua importância metafórica. O mictório de Duchamp mais que Obra de Arte é um fato metafórico, assim como o cocô da criança. Ela o considera sua mais que acabada obra, feito argila feito gesso feito Rodin e Claudel. Obra rugosamente estranha, mas sua.