28 dezembro 2006

primeira estorieta número 4 da Medicina paradoxal

"(...) Não se trata de um prazer genital. Fase oral: o mamar para o bebê não corresponde ao prazer orgânico ou ao alívio em relação à fome, mas sobrevem do prazer em sugar, ritmadamente, tensionando o palato e a lingua, movimentando fugazmente os lábios e toda a boca em vai-véns contínuos, sensatos, ejaculantes; daí o afluxo do leite fresco e nato que excita a mucosa, o mamilo ponteagudo e rugoso que adentra a cavidade bucal remexendo em exstase a vontade mesma de ser – a vida pela vida. À margem de qualquer saciação orgânica – tratar-se-ia de alimentar a alma caso fosse de se falar em alma - insuflam o ego possibilitando-lhe o amadurecer, que, como vimos, se surpreende em auto-engano. Os próprios e minúsculos dedos tornam-se ‘objetos-pretextos’ que emulam o que se experimentara originalmente, misturando-se a memória e o presente, chupando o lascivo gosto do polegar, fantasia de si mesma, o paladar e a imaginação, extrato do corpo e a intenção fugidia de ter-se; por fim, quando apontam os primeiros dentes, mordidinhas efêmeras complementam o ritual, às vezes com pitadas de raiva, quase sangram, como se estivessem a provar o próprio corpo, sua força e sua resistência, pô-lo a prova nessa realidade irreal, surreal, fantástica, una. (...)

23 dezembro 2006

Raciocínio inconcluso da última estorieta número três da Medicina paradoxal.


Mas as crianças necessitam da Medicina paradoxal. Pois se as pessoas nascem e morrem em hospitais, não seria este um bom motivo para se brincar de médico?

- Como não?!

Não sei que responder. Se há um responder. Até porque estou bêbado, e cada gota de cachaça não era menos que um raciocínio abstratíssimo de como deveria respondê-la. Até porque vivo andando em círculos, e os círculos parecem quadrados quando estou bêbado. E nós nunca acreditamos em círculos quadrados.
Eu sempre fujo, eu sei. Como alguém pode me amar (exceto minha mãe), mesmo com amor minúsculo, mesmo sem músculo. Fujo de amores por qualquer causa: medo, orgulho, insensatez, razão. E eu, que nunca acreditei em dicotomias como razão-emoção, dentro-fora, verdadeiro-falso, sim-não, vejo-me no entre, no talvez universal das coisas. Mas não no ou-ou, e sim no nem-nem (que é um talvez exclusivo).
Fujo por fim de mim mesmo e admito que por vezes sequer sou capaz de me entender.

21 dezembro 2006

primeira estorieta número 3 da Medicina paradoxal

Exalava Coca-Cola. Cada dia mais negro, e não via a cor do Sol. Nem o Sol ele mesmo. Depois da coca a coca, e esbranquecia feito esquimó. Até me enjoar e me encher e decidir enfim por minha pele natural, que se esvairava transeunte em poeira pelos cantos do quarto. Se as crianças crescem e os velhos diminuem, para onde caminham os adultos senão uns contra os outros, indecisos, trombando, trepando de lá para cá.

E ando e indo. Caminhando e ventando e caindo e evaporando. Até que pó. E eu não era nem a poeira dos recantos nem o corpo nu avassalado, tampouco o encontro fútil entre a agulha e o braço, o punho e a navalha - se bem que o malandro aposentou-a para não mais se ferir.

Assim eu confesso, e de outros modos: ainda não fui adulto ou jovem. E menos necessitam as crianças e o Entendimento kantiano da Medicina paradoxal.

19 dezembro 2006

Narratriz de si mesma

Passávamos dia e noite dia e noite amando amando quem quer que fosse: o trombadinha, o musicanto, o pederasta, o patrão, o cafajeste, a bola de sabão, a etcétera, e eu mesma ou ela - só que com a mão. Sós, e a solidão não deveria se inclinar a plurais, sós passávamos noite e dia sem que se passasse dia ou noite sem que soubéssemos ser amor o que deveras sentíamos. Júlia se esquivaria das hipóteses de eu ou ela desconhecermos o amor ou de não o termos experenciado. Ana se compadeceria por eu o julgar não apenas brega, mas em sua breguisse, tolo.
Passávamos noite inteira. Éramos capazes de virar de lado e mudar completamente o assunto, mesmo sem palavras, atônitos. Ela tremia. Eu me ria. Tadinha. Você me ama? E eu não soube que lhe responder.

14 dezembro 2006

quarta estorieta número 2 da Medicina paradoxal

É a mais pura verdade. Do quincas, defronte ao Mercado Central de Belo Horizonte, apreciava-se tudo. Não foi apenas morte; foi morte e tragédia. Tragédia e comédia. Os estudiosos chamariam de ironia. Mais especificamente, ironia do destino. Basta o relato, posto que verídico. Comédia não apenas por conta dos trejeitos bêbados, transebundos, irregulares e coitados do homem que daqui a pouco seria atropelado e recolhido pela mesma ambulância do SAMU.



(obs.: plágio de mim mesmo em 24/02/06)


10 dezembro 2006

"O rato tem somente um caminho se encurralado" (Freud sobre o caso homem dos ratos)

06 dezembro 2006

terceira estorieta número 1 da Medicina paradoxal

Apertou-me o peito a cápsula ingerida. De cujo refugo meu estômago se eximiu prontamente:

- Não - proferiu a Boca acinzentada do estômago -, pois se os doentes necessitassem de remédios para serem quem são, basta como índice de sanidade repelí-los, e então já não seriam mais doentes.

E entre o esôfago e a traquéia minhas cordas vocais espremiam-se em contrastes afônicos, posto que passava feito um jato por ali a tal cápsula enremediada. Irremediável foi. Até que escapoliu e estalou das cordas um atordido tom em mi, quase meu, mas sem ainda pertencer-me, exceto se supormos que eu sou meu interior.

Mas a boca, que representa o fim e o início do sentido da vida, pois diz e sequer é capaz de desdizer-se sem afirmar-se novamente, a boca se fechou radicalmente, contrariando o conluio do resto do corpo, que se esforçava a espelir o medicamento. Ela ficara afática. E persistiria em greve, tanto mais a injustiçassem como a causa de paradoxos performáticos. Não restou outra saída senão volver e terminar o que não se pode dizer que começou.

por Modus Ponens 1-2

O que resultaria em falácia, por ad absurdum ad hominem, ou simplesmente a falta de senso em se identificar eu e eu mesmo.

04 dezembro 2006

quarta estorieta número 1 da Medicina paradoxal

No início era o quarto. Kuartz. Kaos. E no quarto não se encontravam canetas, lápis, livros de filosofia. Quatro paredes pois quarto. E daí, deitado, um corpo. No corpo nu, a vontade irrefreável de ser. Sentir. Ou gritar gritos distorcidosque se ouvissem tão embaraçados quanto a torcidado Atlético.

Levanto-me como quem nasce. Primeiro a cabeça. Depois o corpo, mas o corpo pelos braços e cada braço pelas mãos. Os dedos e as unhas em busca do lápis que não havia. Então as unhas, em revolta, resolvem arranhar-me o corpo feito bisturi, à guisa de enfeitar-me palavras sangrentas, enfeitar-me para o carnaval dos contos - mal sabiam que no corpo, avermelhado e enturvado de dor, mal cabia uma frase inteira, grande, cheia de vírgulas e entretantos. Isso porque também o corpo, e sobretudo ele, revolvia feito minhoca feito cobra.

Cusparadas ofertavam a tinta necessária para que se pintasse às paredes toda a minha mitologia, que era esta, que era nenhuma. Era a quarta estorieta, que era ela mesma. Sendo.