30 setembro 2006

Aliás, João foi uma tentativa de ser simples. Uma das condições de ser simples é as pessoas entenderem sem dificuldade. Pensava, antigamente, que seria apenas condição necessária, não suficiente. Talvez seja hora de rever meus conceitos. Ou faço disso aqui uma outra tentativa que não a de ser simples, ou que entenda o entendimento alheio como condição necessária e suficiente para a simplicidade dos textos.
O que me deixa numa situação difícil, porque tem coisas que não consigo dizer, ou porque o alfabeto tem cerca de 25 letras apenas ou porque eu sou incapaz de fazer-me entender. Deveria me calar ou continuar tentando. Há coisas, porém, que não se podem dizer, assim como coisas que não se devem dizer. Estas, creio eu, são mais complicadas do ponto de vista existencial, e destas eu teria de me livrar para que as pessoas começassem a entender o que eu quero dizer quando escrevo o que eu escrevo do modo como escrevo.
Bom, admitidas as falhas
Adeus.

29 setembro 2006

Paradoxo II

Correu. Em disparada como se corresse atrás de si. Correu para fora da caverna feito Indiana Jones em busca do cálice sagrado. O Graal, o copo cheio de ar. Mantinha o semblante de quem derrota o Diabo ou se imortaliza numa estátua. Sem olhar pra trás, Exuberância.
Como um passe de mágica, varinha de condão, através de salto fenomenal, estupendo salto, desses de dublê em Hollywood, alcançou o lado externo, e de dentro do lado de fora avistava o céu límpido e alucinante, o sol que cega quem não se aveza à verdade, o brilho da mentira que de modo algum se assemelha ao falso. O Ocidente adquiriu uma primazia em relação ao real.

Escapoliu entre os destroços e a cegueira que se erguia a seu redor, mas cego não soube distinguir se a poeira que lhe adentrava pelos olhos lhe cegaria ainda mais ou se apenas o machucaria. Talvez fosse inofensiva. Intacto, sem gota de suor, sangue, compaixão. Saltava-lhe o coração pela boca, e a cada retumbar um passo. Olho de herói, outro de místico.
Guardava seu metro de altura, mas hipsofóbico evitava olhar para baixo e mantinha quase que involuntariamente um semblante heróico, destemido. Guardava-o como segredo secretíssimo, porque místico, porque ninguém cruzaria a longa ponte que se erguia à sua frente sobre o precipício sem cegar-se a si mesmo. Parou. Volveu. Atravessaria ao contrário, como se apertássemos o reward do DVD. Passo ante passo, de costas. Percebeu então um último inimigo. Era-lhe impossível, porém, revolver-se, já que tão diminuta era a ponte, cabendo apenas a largura de um pé. O super-homem voaria.

Desembainhou sua espada e a cravou no peito, deslizando-a pelo dorso até o umbigo, onde a torceria de um lado a outro como se desarolhasse vinho. Saca-rolhas. O sangue escorria-se-lhe pela mão, pelo ralo dos dedos que não fazem parte da mão, mas que a definem enquanto mão, pela superfície instavel da ponte. Ao perceber-se derrotado cortou de uma só vez as cordas que sustentavam a ponte, de modo que nem mesmo precisasse saltar de tal altura, seu metro, o dobro da metade de si.

25 setembro 2006

Paradoxo

Media exatamente a metade do dobro de si. Fugia pela parte que não fresta da janela, tomava o ar do copo já vazio, respirava o cheiro de vinho seco que molhava o tapete de retalhos. Era menos tapete que retalhos e vice-versa. Coloria o invisível com a cor de seu pensamento, como se fosse outro, não você, porque você não é o outro, mas ele, como se fosse ele mesmo e um pouco mais da metade do dobro de si colorido com as cores de seu pensamento, seu corpo em cores de corpo, as unhas transparentes mas roséas, sujas na pontinha que se corta com alicate ou cortador de unha. Só a ponta da unha cresce, o fio de cabelo, só a fruta amadurece, a árvore envelhece e a cada ano deixa cair suas folhas amareladas. Ele, o outro, que media a metade do dobro de si, tentava inutilmente subir, inutilmente porque subir é uma palavradoxo,

sub
ir

como se descesse, como se fosse possível o próprio corpo sair pela cabeça como o fazem os cabelos, e as unhas pelos pés e pelas mãos, porque só as pontas crescem.

O presente do passado que não muda[1], desmuda, desmundo, tempo contratempo, a saída de quem assiste a própria fuga, de quem refaz os próprios passos, de cor e ainda observa-se pelo avesso errado, pelo olho de quem dorme, por puro prazer

estético.

Sem se cansar ele corre atrás da tartaruga como aquiles, como o velho que mata a criança dentro de si, suicida-a gramaticalmente, palatino. Corre por um caminho sem saída sem encontrar fim, nalguma lonjura infindável, nostálgica e futura, sem saber que o fim está em si mesmo, em encontrar-se, no segundo ínfimo, in. orrer.



[1] Se não houvesse tempo, se ele não passase como acreditamos, então a maioria dos paradoxos se extinguiria. Sem tempo, não teríamos a paciência necessária para pensá-los, ficariamos presos à margem do que se passou, tampouco retornaríamos para reescrever nossa própria sentença, condenados ao tempo.

21 setembro 2006

Lá fora chove uma chuva tão gostosa que acordo para sonhá-la. Vontade de comer. E o frio que adentra o quarto pelas frestas. Carnes. Arestas que cortam carne fresca. Mutilam. Sem coberta, coberta de sensações as mais inverossímeis, dessas que vêm como o fresco da fresta de uma janela entreaberta e nos arrebata como um despertar. O pau duro do amanhecer. Alvorar. Carne. E mesmo o sangue, que não é seu oposto, esfria e arde como Mertiolate. O sopro que alivia o machucado. O beijo materno, o vai sarar. Dorme menino, dorme feito o guardador de rebanhos. O desassossego. Até que nasça qualquer dia, até que o próprio tempo pare para contemplá-lo. Como se ouvisse Chopin, ouvindo em verdade apenas a chuva. Outono, inverno. O chão. As gotas que amalgamam, mal amam, desamam e confundem amor e fúria, despencam de tão longe, tão longe estrada. Estio. Repicam no chão como palmada de Havaianas. Fulminam todo pensamento enquanto o sono se desfaz em prosa autônoma. Desarmonia. Vênus sem braço. Caneta sem mão. Sem carne. Sem homem. Mulher. O peito tão... aliás, frio: Transpulmin.

17 setembro 2006

Dr. Curtis McCabe: And you didn't immediately wanna sleep with her?
David: Well, you know, I'm a pleasure delayer.

09 setembro 2006

Um grande vazio. Imenso.
Menor do que qualquer mentira, o segundo cartão amarelo, a visão do inferno. Maior do que meus pensamentos ao lavar toda a louça. O encontro, não nos contemos. Os outros desistiram - inexistiam. Eu insistindo em me calar, sem ruído. Ela insinuando ahs e ohs, ihs e todas essas meias palavras não ditas, malditas porque sem sentido para nós, homens do século XXI, nós que sentimos o mal-estar de não sentir, que viemos a criar coisas sem estética, que afirmamos não nos importar quando um verme nos rói por dentro, persiste. Como insetos em volta da lâmpada e varizes e a fenda e o fosso da memória corporal, de inauditos ohs e ais que se não machucam, apenas por existir incomodam, tanto que eu prefiro me calar. E nem um gemido, uma meia palavra, um quarto.
A dor de cabeça. O dia. Sem tempo.
Meu Deus, a casa um caos. A cama. O café.
Depois de todos esses anos seu rosto parece uma areia movediça em minha memória. O escuro, o claro. Nu. A dor de cabeça não perdoa, martela cada momento, cada lembrança esquecida. O superego. A casa um caos, e Deus sabe o quanto eu não suporto a bagunça alheia.
- Deixa que eu mesmo lavo.
- (...)
- Um banho seria bom.
Anakronicas. Eu me lembro dela e o quanto eu gostaria de que fosse ela quem me abraçasse por trás, como um homem, mas mulher e toda aquela poesia que eu insisto em negar, e no fundo, se tivesse fundo, eu simplesmente me desconheço, mesmo nesse reconhecimento infinito que é escrever e lavar pratos. Essa falta em sintaxe.
Refaço a noite. E o vazio de não querer mais.

02 setembro 2006

Desde o princípio ela nunca recusou os meus braços, e ainda hoje - devo admitir essa recusa como meu maior medo. Desde o princípio e ainda hoje.

Dicen que la distancia es el olvido
pero yo no concibo esa razón
porque yo seguiré siendo el cautivo
de los caprichos de tu corazón.

Supiste esclarecer mis pensamientos,
me diste la verdad que yo soñé,
ahuyentaste de mí los sufrimientos
en la primera noche que te amé.

Hoy mi playa se viste de amargura
porque tu barca tiene que partir
a cruzar otros mares de locura
cuida que no naufrague tu vivir.


Cuando la luz del sol se esté apagando
y te sientas cansada de vagar,
piensa que yo por ti estaré esperando
hasta que tú decidas regresar.
(la Barca)