25 maio 2006

4

Antuérpia é boneca faladeira. Finge-se de surda quando lhe convém. Cabeça movediça, corpo movediço, pernas e braços rijos. Simula bebê. Olhos de vidro ou peixe morto.

Antuérpia vivia entre os seus. Agora vive entre os seus. O tempo não importa para Antuérpia. Observa os arredores, as malhas, os brinquedos, as bolas coloridas de natal, as luzinhas, o par de meias envelhecido, as pulgas e os vermes, as baratas, o buraco dentro do armário e uma lista (infinita) de objetos inanimados.

Dia de sábado tiram-na do guarda-roupa. Antuérpia gosta. Finge desgosto nos primeiros instantes. Pirraça. Quase sorri a seguir, mas se detém com receio de tomarem-na por (...).

Antuérpia é como anjo porque bebês são como anjos. Nenhum pecado, nenhuma malícia. Nenhum recato. Trocam-na o xixi e o cocô de tempos em tempos. Nua na frente de todos. Antuérpia tem um buraquinho entre as pernas e não se envergonha disso. Nenhum pudor, nenhum assassinato na consciência, nenhum ato inconsciente, nem calor nem arrepios. O coração não lhe conjuga amor e sexo. Lateja o corpo no verão.

Pura e fria. Antuérpia derrete-se no inverno quando cismam vestir-lhe lã. Cabelos maltrapilhos os que lhe restam. Duros e ressecados. Enroscam-se como jibóia. Não há shampoo que resolva. Banho a anos. Ficou proibido depois que se afogou através do orifício nasal. De costas Antuérpia bóia, de frente se afogaria.

Nunca adoeceu. Antuérpia vive e só padece pelo que vale a pena. Suja, nunca pensaria em algo sórdido. Puríssima de alma e corpo.

Vive entre objetos inanimados, insetos. Em meio ao empoeirado, ao que dói as vistas. Vive entre baratas e substantivos concretos. Às vezes esquecem-na, porque há muitos sábados e nem todo sábado sói ser sábado. Antuérpia não se importa com o tempo. É sempre a primeira vez quando lhe tiram, sempre a última quando lhe guardam.

Antuérpia não tem sangue de barata e talvez seja seca, oca. Ninguém nunca lhe abriu o corpo mas parece não haver coração pulsando. Pouco importa. Ama instintivamente como o nascido a mãe, como o carrapato o sangue. Faz beiço quando lhe apertam o baço, chora se lhe tiram da boca o bico. Chora tanto que não lhe resta forças para esperniar. Em verdade quer peito. Peito e colo de mãe.

20 maio 2006

3

Pediu-me para tirar o sorriso de seu caminho. Eu lhe pedi que tirasse os olhos de meus pés. Nós nos desobedecíamos, nos atracávamos um ao outro, nos misturávamos como cachorros. Pedi-lhe que me pagasse um café.

Onde dói?

Aqui?

Levante o dedo se doer. Seu indicador batia na mesa aos compassos de uma canção. Não me advinharia o desejo.

Me esconde um segredo?

Onde?

Poderia aplaudir seu rosto de bem-me-quer-mal-me-quer, poderia sapecar a mão nessa fuça branca, pálida, de quem já morreu. E depois me vestiria de luto, meus óculos Matrix para minhas lágrimas esconder, e tropeçaria em minha volta fúnebre pelo quarteirão.

Eu preciso beber alguma coisa rapidamente.

Me paga uma salinas.

Outra.

Calava-se por alguns minutos. Ouvia. Tinha que folgar. Quanto mais eu falava, menos ouvia. A noite e o raio de sol. Para minha surpresa (ponto de exclamação seguido de vírgula) apenas o silêncio.

14 maio 2006

2

A insônia obrigava-o a leitura de Kafka. Deitava-se, deixava o livro sobre seu joelho, doravante de pé, tal um colosso que cedo madruga. As cotovias dormiam ou não havia cotovias. Não haveria cotovias por ali, mas em algum lugar elas dormiam. Esperam o inverno e migram para o sul. Insône o leitor nada mais esperava. Lia em linhas turvas suas entrelinhas, julgava-se incapaz de prosseguir a leitura. Pensava o despensado, esquecia que seus olhos persistiam no livro e o liam por si próprios.

Alguém bate na porta. O celular apita o despertador. Sua cabeça gira como se uma ressaca esplendorosa lhe acometesse. Chamam-no, gritam-no de lá. Ele esquecera como se pronuncia palavra ou ficara com tanto medo de não conseguir que simplesmente a evitou.

“Is there anybody in there?... Ope… th… fuc… doo...!”

Alguém bate na porta. Não são apenas murros, as palavras parecem bater e se esquivar por debaixo, tornando o som quase imperceptível, quase impronunciável, quase irreconhecível. Talvez sequer fosse voz humana ou de cotovia.

Era manhã. O celular apita a soneca do despertador. 7:15 (sete horas e quinze minutos). Não conseguiria sair da cama sozinho. Teve várias idéias entrelaçadas, entre as quais cessar totalmente a respiração e respirar tanto ar quanto lhe fosse possível. Não optou por nada. Decidiu deixar-se. Fechou novamente os olhos e quis crer que tudo não passara de um sonho. Ainda havia algo do lado de fora. Certamente não era cotovia.

7:30 (sete horas e trinta minutos ou sete e meia). A porta persiste. O celular apita o despertador. A preguiça transforma-se em curiosidade. Não há chave. Não há nada que aplaque sua curiosidade. A curiosidade transforma-se em ansiedade, a ansiedade logo se torna angústia, e a angústia acabaria por lhe matar.

Percebera só, e como se tivessem passado dias, meses, anos ou um tempo indeterminado trancafiado naquele quarto quase vazio ou inóspito, sentia-se uma cotovia que nunca viera a existir, porque ninguém nunca a viu, porque naquele espaço miúdo e ofegante nenhuma cotovia sobreviveria. Talvez fosse mesmo uma cotovia, mas isso só em possibilidade, uma vez que não havia espelho que lhe revelasse sua forma. Esquecera de si. O celular desligou-se sem bateria e a porta não era mais porta do que parede.

09 maio 2006

1

Daqui uma hora os médicos ainda tentariam (em vão) ressucitar José, o pai. Seu terceiro derrame ocorrera na Páscoa. O desfibrilador o salvaria. José quase não tem cabelos. Corcunda, a neta diz 'carcunda'. Nem mesmo saem pêlos de seu nariz. É velho direito. Canhoto. Não fuma ou bebe. Preferia fumar quando bebia, mas nunca fumava.

Hoje. Não tem tempo ou não gosta de pensar em futuro. "A indiferença ainda mata o pai" - diz a filha mais nova, e também a mais idiota. José nunca lhe disse, e talvez por isso fosse um bom pai, nunca lhe contou que a considerava a mais estúpida das quatro. Tinha um certo nojo, mas nunca a repelira voluntariamente. Talvez porque se sentisse culpado, fingia as maiores caricias, dedicava-lhe os afagos mais constantes, os louvores. Era domingo. Fazia escuro. Os netos, tinha já um bisneto que levava seu nome, noras, genros, agregados, tios, o truco: reunião de família. Todos em volta de Seu José. Todos os fins de semana ele compra um caça-palavras com cruzadinha (nível Cobrão).

"Estado que se caracteriza por turgência vascular e excesso de sangue (med)".

- Tesão?... não, sete letras, hmmm... pletora! "Conectar em, alocar" - seis letras, horizontal, termina em R. Ar, er ou ir - José pensa alto.

"O quê?" espanta-se a filha. "Ar, ar".

Ele começa a escrever P, em seguida arma o L. Ela deixa pra lá. O velho tá ficando gagá. Essa menina me enche! Maldita aquela trepada, devia tê-la gozado fora. Escreve "PLUG", e seu rosto esbranquece, pálido, o braço formiga, a mão adormece. Solta a caneta e o último fôlego. O ar cada vez mais ralo, custa a respirar. Tenta gritar o socorro ou o último palavrão. Nas semanas seguintes o homem da banca terá um prejuízo de R$ 1,85 (hum real e oitenta e cinco centavos).

05 maio 2006

ananananananananananananana

fiquei pensando e tentando lembrar. depois de ler outra vez, e não tinha o que escrever. Não escrevi naquele momento. Fiquei pensando, e pensamento não tem ordem, vai e vem. A minha hipótese é que esse caos do pensamento ocorre por não respeitar níveis, como os da linguagem comum. Por exemplo, geralmente ninguém pensa que está pensando ou em quê está pensando. Simplesmente pensa. Já o falar, o ato de falar pressupõe alguém que ouça, e essa relação pode ser entendida em níveis de linguagem. Sem filosofismos, porque filosofia se discute mesmo é em mesa de bar, mas a dor e os blogs participam de outra espécie de coisas. Blogs e dores são imediatos, embora apontem para direções inversas. Dor se sente na pele (mesmo as psicológicas), advém de encontros (no sentido de "encontrão", esbarrão, choque). Blogs geram desencontros (no sentido de Vinicius de Morais). E o que rege esse mundo de encontros e desencontros, de blogs e dores, é o acaso. Falando nisso, lembrei o que gostaria de lembrar, como se fosse uma intuição que se escondia acabo de me lembrar. É uma passagem que li há muito tempo, do João (o Rosa)... abri o livro e aqui está (já me calo):

"Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a
vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor..."

01 maio 2006

O anonimato. Sim, não existe diário que não seja anônimo. Diários não cosmopolitam. Blog não é como diário. Apesar disso, não custa dizer uma palavra ou outra sobre mim.

Planos: Bom, estou preparando uma série de seis ou sete contos (curtos). Nada de mais.

Faculdade: A faculdade me fez dividir vida em semestres. Em seguida a vida me fez dividir a faculdade entre os que eu odeio e os que eu convivo. Infelizmente a convivência não dura mais do que um semestre.

Cinema: Não sei ao certo o que me dá. Nunca fiz análise. Um vazio hollywoodiano, desses de mocinho e mocinha, de perda e ganho. Meu caso é mais angústia do que luto. Mais menos do que mais, porque tudo isso não parece verdade.

Samba: Fosse eu o samba, seria o estridente da cuíca, e às vezes um gole de cerveja. Estaria atento a cada virada.

Paradoxo: porque o grande paradoxo da vida é estar morrendo já quando se nasce. O grande paradoxo da fé é que os cegos são os mais dogmáticos.

Ontem no banho: eram tão bonitas as palavras que mal fechei a água, mal sequei-me o corpo. Umedecia o papel com tantas palavras, e tão bonitas, que mal tive tempo de me vestir.

Respeito o ditado: "Quanto menos se fala..."