29 julho 2005
MINIMAX
Não sabe que venceu, pensa nas regras, regra-se solto, livre delibera, joga, mas joga o gozo, merece sempre o céu e no inferno avantaja-se quando arde de rir.
A mim a vitória não interessa; senão olhar os olhos de quem se opõe, já caído, implorando clemência ou o golpe derradeiro.
27 julho 2005
O Menor Conto do Mundo.
Quanto ao maior conto não resta dúvida: Grande Sertão: Veredas. E o mesmo Guimarães Rosa, no Terceiras Histórias, dispara uma série de continhos, cuja concisão oculta sua épica. O certo é que a maioria deu um sertão ou uma vereda. Têm também os prefácios, quatro, que compõem obra a parte. Dizem que Machado é o mestre do conto. Concordo. Suas melhores páginas estruturam-se por essa arte de narrar pequenas estórias. Cada romance se constitui de pequenos agrupamentos narrativos, que, longe de sintetizá-lo, aglutinam sentidos.
Confesso que não é possível, para alguns autores, apartá-los de suas obras, até porque narrar é em certo sentido viver. Veja-se o prefácio de Várias Histórias. A simples idéias que nos dá na cabeça reduzir a linguagem, tratá-la como um ser amorfo, em princípio, mas com contornos que ocupam a mão. O último dos Veríssimos garante que é possível expressar qualquer pensamento em menos de sessenta linhas. Talvez.
Mandei o Stener cortar pelo menos a metade do nosso conto, questão de economia. Agora que minha participação findou-se, tenho outros planos, embora meu grande plano de férias tenha se asfixiado por submersão. Pouco me importa, e isso é o mais importante.
Estou disposto a quebrar o recorde dessa argentina, mas não por métodos sórdidos. Aí vai o primeiro. Chama-se O que fica pra depois do fim: "Intentavam malogrosamente consumir Jazz e whisky". Ou então esse: "Morreu herói embora ultrajado e sem espada".
Poderia escrever mais uma porção desses. Mas não; prefiro interagir. Além do mais, o Guilherme disse estar esperando uma oportunidade. Quem se encoraja?
25 julho 2005
Erratas
3) Dia 22 eu não fiquei por aqui. Fui a churrascaria com o patinho e o patão. Bohemia a 2,80... e ainda acham ruim eu tomar todas, dessa vez a culpa não foi minha. 4) O remédio de minha mãe chama-se bromazepam, tarja preta, e não *******, como consta abaixo.
P.s.: quanto aos erros de ortografia, deixo a correção para o leitor.
24 julho 2005
CENSURADO!!
A quem leu: minhas desculpas sinceras.
23 julho 2005
Idéias que vêm e nos vão.
JURULURULAÇÃO. [do Tupi jururu = estar tristonho + do latim luna = por via popular]
S.f.
1 - Ato melancólico e transebundo de espiar a lua (solitariamente). P.ex.: "Eis que em sua jurulurulação, inerte pervisava como se pela lua andasse".
2 - Efeito hipocondríaco de se esbordoar com a pele de alguns anfíbios anuros, cujas rugas, peçonhas e tubérculos se abrem ao primeiro contato de pele alheia.
3 - Pensar somente na lua, quando do plenilúrio, isto é, quando o reflexo da luz solar nos atinge após recochetear toda superfície lunar.
4 - Estado pleno de espírito, como se algo faltasse. P.ex.: "De jurulurulações tremendas tremia-se por inteiro, mas não cada parte".
Hoje, desperto, de dia, já não me inspira o mesmo efeito. Ao menos é difícil na pronúncia e de um belo ressoar. Pensamentos nos vêm e vão, assim como os ímpares dos pares de meia, que desaparecem metafisicamente de nossas gavetas.
Ao vencedor as batatas...
Ao vencedor as batatas, isso que eu queria dizer abaixo e me perdi. Acho que não houve vencedor.
Comprei umas cervejas, tá rolando o show do Pink Floyd; ficarei por aqui... Até.
21 julho 2005
Dos costumes da fé. (parte III)
Religioso, digo, no sentido de transcendência perdida, valátil; junto ao desejo sublime de realizá-lo. Nesse jogo aceita-se a melhor proposta, custo-benefício, o lance que mais facilmente se comercializa, que promete ao sentimento cumpri-lo, exterminá-lo. Por conseguinte, o absurdo do agnosticismo é suster-se num outro nível, presumido acima, porque o ideal de transcendência não mais se nutre, realizou-se. Entretanto, como é isso possível se nem santos são? E sendo-os aí é que um único ser não suportaria tamanha contraditoriedade em si.
Veja-se Sartre: o grande liberto do século XX. Aquele mesmo que perambulava messianicamente até sua real condenação, a facticidade, a responsabilidade imensa de quedesfrutamos ao agir - e reagir. Cristo, conta, também sentira o ultraje; e seu pai, sua dúvida, na cruz: "vale mesmo a pena?" Não é ceticismo, é dúvida.
Em entrevista a seu tradutor alemão, Guimarães Rosa afirma que (... política). Sua alienação é estratégica, louvável. O mesmo não se pode dizer das noveleiras ou dos universitários que se funkam na boquinha da garrafa, que procuram na negação da negação da negação... seu cult aliado ao 'tô nem aí' pós-infantil, como se 'aproveitar a vida' fosse uma invenção recente, sua.
Não escrevo essas linhas por revolta, desprezo, arrogância, ironia ou sentimento que o valha; mas simplesmente porque, não tendo mais o que fazer, meus dedos batem as teclas automaticamente.
Lembra-me aquele poema do Guardador de Rebanhos, no encontro da criança caeira com o menino jesus. Este dizia espulhérias de Deus, porque pensar nele é desobedecê-lo - desde as teologias místicas.
"E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O menino Jesus adormece nos meus braços
E eu o levo ao colo para casa"
A poesia pessoana é de bêbado (não para), ou nem sei que outra droga. Decerto não estava lúcido ao compor a maioria de sua obra. E isso também é uma questão de autoria, um modo de burlar os limites da metalinguagem, de zombar de minha cara, levar-me ao abismo. Eu, que longe de ser um nietzschiano, sinto-me realmente mal ao pensar que, lendo-o, participo de seu rebanho - e discípulo é tudo o que ele não queria, manifestamente.São cegos que não conhecem a palavra: "Quem tem olhos que veja" (de preferência por si mesmos). A "Parábula dos Cegos" de Bruegel. Tem também aquele conto do Guimarães... Mas isso é outra estória, porque cansei.
19 julho 2005
Dos costumes da fé (parte II)
Nem as crianças crêem em acaso. Fingem derrota, ficam surpresas com seu logro ("Oh! ganhei...") apenas para seu adversário não se dispersar do jogo. Os adolecentes, sim. Dizem: "Não estou nem aí", mas se borram ao primeiro sinal inesperado. Fingem triunfar quando estão já no abismo de si mesmos, e a si, só mesmo uma criança é capaz de enganar. Ambos são inconsequentes, embora a criança saiba disso plenamente.
Pois bem. Meus números são: 07, 11, 26 , 32, 35, 53; e 03, 22, 37, 38, 44, 58. A primeira aposta é mais balanceada, a segunda, de risco. Se eu vencer está provado, para todo sempre, a veracidade e a eficiencia do Precaucionismo... Mas aí eu já estarei rico o suficiente para dizer "Não jogo mais".
Remédios e meia culpa
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém rouba mais de mim.
18 julho 2005
Ressaca Moral, e outras.
Mas essa é outra, não a minha: olhos ligados a grude, azedume à lingua, hálito ainda vencido, de quem se entrega porque nem guerra há. A ressaca de Capitu é dos mares, do fluxo-refluxo constante, o recuo quando da tentativa de apreendê-lo e o avanço que nos engole como a um obstáculo menor. Os olhos de Capitu são versáteis, tenhamos pena de Bentinho, que de temor ao par negro de sua amada afogou-se à primeira investida fragorosa de um mar já agitado; já estava na de Mata-Cavalos a Capitu da praia da Glória, o que mudou foi a areia, e quem nela se refugiava, como Dom Casmurro e nós, seus leitores. Machado não, este, pela lógica dos níveis subira numa árvore de Porfírio e entre os galhos nenhum sinal de vida. Tenhamos pena de Bentinho, repito, mas não o desculpemos. Não era imbecil, tampouco amalucado - "o amor é o maior dos vícios" (Pequeno Tratado dos Grandes Vícios).
16 julho 2005
Alteração na Rotina
Hoje, absorto, distraído, penso em Rock. Ouvia no almoço The Wall, disco II. Nos planos de hoje apenas Rock. Nada de Obra, nada de Up. Tem de ser ao vivo.
Pra não dizer que nada fiz, pensei sobre o conto do Stener, em fazer um monte de buracos (estratégicos); o texto dele tinha início, meio e, embora não tivesse fim, havia uma inclinação para. Não, eu não escrevo assim. Primeiro o caos, depois a ordem; como disse um desses sociólogos: "não sou cartesiano", embora não abra mão dos métodos. Também folheava o A Portrait of the Artist do Joyce; tentava encontrar uma passagem sobre as três condições para ser artista. Não achei. À sua falta, reescrevo uma passagem de um livro que leio, aos poucos, sobre a ironia:
"The only possibility open for a real artist is to stand apart from his work and at the same time incorporate this awareness of his ironic position into the work itself and so create something which will, if a novel, not simply be a story but rather the telling of a story complete with the autor and the narrating, the reader and the reading, the style and the choosing of style, the fiction and its distance from fact, so that we shall regard it as being ambivalentely both art and life" (MUECKE, Irony).Até a próxima ressaca...
15 julho 2005
Dos costumes da fé. (parte I)
Fiquei por pensar em que pensava; eram vinte minutos de ida, a metade de volta, porquanto já havia acordado, dormira o suficiente na aula. Hoje não mais, meus olhos acostumaram-se, por eles, pelo mesmo método do Alex no Laranja Mecânica. Que filme! Pena dos cegos...
Sei da feiúra da cena: coçar a barba - mania até então nova - ao perandar. Eu também era feia, e feia porque ainda não homem. E também me bisolhavam. 'Filho da puta', pensava, até que roubaram esse meu pensamento. Tomei-o de revés e soltei um 'a sua!, sem-vergonha'. Consistiam-se basicamente em três aspectos: eram feias, feias e feias. Devido que não era só a feia, mas a cena vesga e com penugens acima dos lábios que também era feia. Isto, é claro, implicando conseqüências aos ouvintes – espécie de espectadoriosos –, não dificultando a compreensão do click, apesar de não facilitar a distinção entre a feia e a cena feia.
Pensava. E quanto mais, menos. Até que hoje, ao despensar, o Stener me manda um conto seu, inacabado, pra eu dar fim. Sei não, viu... Será?
'Será?' é personificação da dúvida; quase uma deusa... E esse papo de pensar é mesmo apenas grego. Mas eu pensava em que mesmo?
14 julho 2005
Rotina de Férias.
Quinte a sábado: acordar, pensar em animar, começar a animar, animar, telefonar, sair, beber, merda, não lembrar o resto...
Domingo: Curar a ressaca acumulada.
Hoje é quinta, tô começando a animar.
12 julho 2005
E por falar neles...
1 - "Estou aqui desde 92 e já recebi diversas cacetatas, porém agora que sou o próximo da fila já posso lhes dizer de fato o que2 - é a realidade: a terra abaixo de nós e as paredes que nos cercam; aqui se dorme, do outro lado dois tentam se banhar e à esquerda se alimentam, às vezes
3 -também do lado oposto, ou seja, assim é e desse modo permanecerá! E se faz sol, sei disso mesmo sem ver. É que o que estava por detrás era o negro. Nada! Nulo! Nadica de nada!! ESSA É A VIDA, MEU JOVEM...
4 - ...Essa é a realidade!"
Terceiras apresentações
Meu poeta favorito não vem do monte dos Mártires, mas lonjuras, de fora, e se adentra. Escolhe boa morada, segreda, afunila-se-nos este outro. Escurumbático, sabá, rareiro. Vem vindo, está. J.Pirâhá.
11 julho 2005
Entre Rosa e Kafka... um animalzinho.
Tento ler Guimarães Rosa e Franz Kafka, praticar o alemão. Semestre que vem cursar duas na letras: Kafkas Erzahlungen e sintaxe. Peguei o livro Zur frage der Gesetze, uma coleção de escritos sobre o injusto, a lei, etc. Há vários aforismas, entre os quais dois me chamam a atenção:
1 “Ah”, disse o camundongo, “mais estreito o mundo se torna a cada dia. Antes era tão vasto que eu tinha medo diante dele, então perambulava ao longe lançando-me às distâncias da direita à esquerda das paredes, e agora – não faz muito tempo desde que comecei a perambular – estou nesse meu quarto bastante quadrado onde ali na quina a cilada se arma, justamente por onde passo”. “Você devia alterar a rota”, disse o gato e o devorou. ("Ach", sagte die Maus, "die Welt wird enger mit jedem Tag. Zuerst war sie so weit, daß ich Angst davor hatte, dann lief ich weiter, da stiegen schon rechts und links in der Ferne Mauern auf, und jetzt – es ist ja noch gar nicht lange her, seitdem ich zu laufen angefangen habe – bin ich in dem mir bestimmten Zimmer und dort in der Ecke steht die Falle, in die ich laufe. " "Du mußt die Laufrichtung ändern", sagte die Katze und fraß sie auf.)
2 “Ah”, disse o camundongo, “mais estreito o mundo se torna a cada dia. Antes era tão amplo que eu tinha medo diante dele, eu perambulava ao longe e apenas por sorte acabava sendo visto da direita para esquerda das paredes, Mas essa parede se percorre tão rapidamente que eu já estou no cômodo final, e ali no canto a cilada se arma, justamente por onde passo”. “Você devia apenas alterar a rota”, disse o gato e o engoliu.("Ach", sagte die Maus,"die Welt wird enger mit jedem Tag. Zuerst war sie so breit, daß ich Angst hatte, ich lief weiter und war glücklich,daß ich endlich rechts und links in der Ferne Mauern sah, aber diese langen Mauern eilen so schnell aufeinander zu, daß ich schon im letzten Zimmer bin, und dort im Winkel steht die Falle, in die ich laufe." - "Du mußt nur die Laufrichtung ändern", sagte die Katze und fraß sie.)
São metáforas semelhantes, de um mesmo manuscrito. Acho a segunda mais interessante; sublinhei as diferenças. Isso lembra-me o Rosa no Tutaméia: "'Quem não tem cão caça com gato' - re-clama o camundongo." Enquanto eu não sei se aqui essa citação realmente existe, acho que ele designa "Quiabos", em Kafka é apenas um manuscrito, parte da obra póstuma. Será que ele usou isso em algum lugar de outro livro? ...Semestre que vem essa será minha primeira questão.